Terça-feira, 7 de Novembro de 2006

On Strike

Os senhores do metro resolveram aderir a esse direito fundamental e inalienável que é a greve. Resolveram fazê-lo hoje e fá-lo-ão daqui a dois dias. Entre as sete e o meio-dia. Precisamente à hora de ponta. Uma pessoa anormal poderia pensar que estes "patetas não sabem nada sobre greves". Naturalmente, uma pessoa normal reage de forma diferente e culpa o governo, como os amáveis senhores do metro fizeram, por não lhes dar ouvidos e por não contribuir para a renovação de um mencionado Acordo até 2011. Apesar de este, estranhamente, só expirar no última dia de 2007, ou seja, daqui a pouco mais de um ano.

Percebemos assim que os senhores do metro não passam, no fundo, de clones de Fernando Santos. Tal como este já sabia que um jogador do Benfica iria ser expulso no jogo ante o Estrela da Amadora, também os amáveis senhores e sindicalistas já sabem que o Governo e a empresa que controla o metropolitano não vão renovar as condições contratuais previstas no tal Acordo. E para se assegurarem que os utentes também tomariam conhecimento de tal infâmia, resolveram distribuir vinte e dois mil panfletos explicando a situação e acusando (quem mais?) o bode respiratório (obrigado Veloso!) Governo.

Impõe-se discutir o direito à greve. Os sindicalistas, grevistas de profissão, dirão que não. Direito fundamental inalievável e disparates do género. Eu discordo. Para mim, perante a actual conjuntura económica mundial, a greve é um direito fundamental anacrónico que deveria ser totalmente revisto, sob pena de ser utilizado abusivamente - como foi pelos senhores do metro. E uso o termo não para me referir à empresa mas aos utentes, os principais prejudicados em toda esta situação. Para começar, uma greve pode ser feita em qualquer altura do dia. Não tem de o ser à hora de ponta. O facto de ser à hora de ponta visa apenas exercer uma pressão inacreditável sobre os utentes e sobre a própria empresa que, devido à utilização maioritária do passe, já angariou a maior fatia do seu lucro mensal, dado que muitos já o terão comprado, não sofrendo assim prejuízos de maior.

Os senhores do metro usam de uma retórica inenarrável, de tão má. Basta ler a argumentação, que não chega a sê-lo, justificando o horário e a razão da greve. Inevitavelmente, qualquer não-sindicalista rapidamente se apercebe da quantidade colossal de inutilidades que figuram na folhinha de papel de má qualidade. "A culpa é do Governo" e quejandos. Na realidade, os senhores do metro estão-se nas tintas para os utentes. Se muitos tiverem de sofrer para o bem de alguns, assim seja. É por um bem maior. Já Hitler dizia o mesmo.

Pensando bem, a conclusão é que afectar os utentes não só não funciona, porque põe estes contra a greve, como também é ineficaz, porque aqueles, estando contra a greve, não protestam de forma alguma, lamentando apenas a penosa situação a que são expostos. Assim sendo, realizar a greve à hora de ponta ou a uma hora normal produz exactamente os mesmos resultados, podendo até colocar os utentes normalmente prejudicados do lado dos grevistas, já que estes mostraram tê-los tomado em consideração na escolha do horário.

A verdade é que as greves funcionam mal. Paraliza-se o país, saem à rua os sindicatos, prejudicam-se as empresas e os seus trabalhadores porque a primeira reacção é logo a mais exacerbada. A greve deve existir, mas como último recurso. Depois de tudo o resto. Sem excepção. Infelizmente, não é o que se tem verificado, muito por culpa dos movimentos sindicais, um lobby tão poderoso como os lobbys que os senhores dos ditos criticam. Penso sempre nos movimentos académicos e nas associações de estudantes das Universidades Públicas quando ouço falar de greves, mormente nos transportes ou na função pública. Um grupo de imberbes intelectuais, vociferando disparates sobre assuntos cuja essência e racionalidade desconhecem quase por completo. E, mais uma vez, paga o justo pelo pecador. Ou deverei dizer, pelo operário?

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